Ideia criada numa pequena conversa com os meus alunos, ao sabor de um amor entre 7 Luas e 7 Sóis, desaguada num desfile de amores impossíveis, paixões loucas, seduções inquietas, mergulhadas num oceano de uma língua sem fronteiras…
Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
Eça de Queirós

Era isto em Setembro; já as noites vinham mais cedo com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates.

 

Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e chata, sobre côncavo silêncio nocturno, ou a opressão da electricidade que enchia as alturas, o facto é que eu — que sou naturalmente positivo e realista — tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe no fundo de cada um de nós, é certo — tão friamente educados que sejamos — um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar — para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a ideia, e fique assim o mais matemático, ou o mais crítico, tão triste, tão visionário, tão idealista — como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho fora o aspecto do Mosteiro de Restelo, que eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava no seu cachimbo — eu pus-me elegiacamente, ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranquilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a «Imitação», e, ouvindo os rouxinóis nos loureirais, ter saudades do Céu. — Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atributo a esta disposição visionária a falta de espírito — a sensação — que me fez a história daquele homem dos canhões de veludinho.

 

A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogado em arroz branco, com fatias escarlates de paio — e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava de fronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos — se ele era de Vila Real.

 

— Vivo lá. Há muitos anos — disse-me ele.

 

— Terra de mulheres bonitas, segundo me consta — disse eu.

 

O homem calou-se.

 

— Hem? — tornei.

 

O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.

 

Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de certo no destino daquele velho uma «mulher». Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na ideia de que o «facto», o «caso» daquele homem, devera ser grotesco. e exalar escárnio.

 

De sorte que lhe disse:

 

— A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Minho. Para olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabelos claros cor de trigo.

 

O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.

 

— Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante — e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.

 

— O Peixoto, sim — disse-me ele, olhando gravemente para mim.

 

— Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia — questão de arranjar a fina-flor da perfeição.

 

— À sua saúde.

 

Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de couro. E saiu.

Singularidades de uma rapariga loura



publicado por LCC às 19:01
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