Ideia criada numa pequena conversa com os meus alunos, ao sabor de um amor entre 7 Luas e 7 Sóis, desaguada num desfile de amores impossíveis, paixões loucas, seduções inquietas, mergulhadas num oceano de uma língua sem fronteiras…
Sábado, 26 de Maio de 2007
Aquilino Ribeiro


- Anjo custódio! Outra venha que rabo tenha… Rio-me para ele; que mal tem?
- Tem muito. Alguém acredita que o coroado vem para aqui caçar por caçar? Lebres e perdizes tem-nas a dois passos, a dar com um pau, na serra de Tarouca.
Ela fitou-me muito séria no fundo das meninas a escrutinar, e tomou:
- Vem então pelos meus bonitos olhos?
Raio da cachopa, encarei também muito nela, e de salto me acudiu que mente Marta como sobrescrito de carta, isto é, que muito na mulher é negaça. Estive vai não vai para torcer-lhe as voltas, mas ná, para trás anda o caranguejo, e respondi-lhe afoito:
Vem, vem pelos teus bonitos olhos! Mas também juro à fé de quem sou: não será ele que se goze de ti.
- Não fales à rebentina, primo, que me derrancas a alma. O dito, dito.
- E que vale? Teu pai não consente…
- Que lhe hei-de fazer!?...
- Há um remédio: foge. Abalamos daqui uma noite e vamos direitinhos ao abade da Penajóia, que nos deite a bênção. Ele ainda se há-de lembrar que lhe salvei a vida…
- Fugir?! Jesus, que não diriam de mim!
- Que haveriam de dizer? Se honrada vais, mais honrada vens.
- Não; é muito feio.
- Pois, se é feio fica-te com a tua, que eu vou-me com a minha. Com penas de ir acabar nas cadeias celulares, sem ver sol nem lua, não será ele que se goze de ti. Adeus…
E rodei, tonto de todo, tão tonto que se pudesse arrancar o coração e atirá-lo para cima dum telhado, como minha mãe me fez ao isqueiro, da primeira vez que me apanhou a acender o paivante, fazia-o, ah, isso lhes juro eu que fazia.



O Malhadinhas



publicado por LCC às 18:44
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