Ideia criada numa pequena conversa com os meus alunos, ao sabor de um amor entre 7 Luas e 7 Sóis, desaguada num desfile de amores impossíveis, paixões loucas, seduções inquietas, mergulhadas num oceano de uma língua sem fronteiras…
Sexta-feira, 30 de Março de 2007
Raul Brandão

" Entre as alas da multidão que se comprime começa o desfile dos prisioneiros de guerra. Vêm primeiro os ministros, depois as prostitutas, depois actrizes representando as últimas revistas, depois diplomatas representando os últimos papéis, depois a finança e os bancos, depois músicas. Segue a Igreja e os seus grandes prelados, e o génio que não serviu senão a sua vaidade e o seu egoísmo; a arte e os seus grandes ouropéis; os juízes, a magistratura, a complicação para ganhar dinheiro e um catafalco monstruoso, um catafalco complicado e inútil. Toda a gente assiste sem um grito, sem uma exclamação, sem uma palavra. Seguem o préstito meninas com asas e mantos azuis, meninas com legendas, músicas esbaforidas, e um homem convencido, que solta pombas brancas sobre a multidão. Acompanham-no outros com dísticos de papelão dizendo: Felicidade universal - Paz, união e progresso - Moralidade - Fraternidade! Fraternidade! A passo avançam servos com algumas cabeças degoladas em pratos de cobre, alguns reis a dançar como o profeta David, o corpo de baile do teatro da Ópera, dor , mistifório, absurdo e chufas. Gente às gargalhadas e uma mulher pálida, com olhos de espanto e as mãos torcidas de desespero. Alguns cadáveres arrastados pela lama, algumas meretrizes nuas, alguns homens notáveis de grandes barbas postiças. Damas vaporosas, a mulher de cabelos pintados, bela como um animal, adorada como nunca o foi pela bestialidade e pelo instinto e com ela himalais de farrapos, de chapéus, de rendas reduzidas a cisco, que se enredam nas pernas, voam ao vento, e se amontoam nas ruas. Segue o respeitável corpo médico, e depois as gerações superiores que tiram da vida o máximo rendimento que a vida pode dar, sabendo manejar os homens e fazendo à noite o cálculo do seu dia, e atrás a mudança trágica de uma velha casa sem serventia, com coisas indores, móveis suspeitos, lixo, e a D. Idalina num coche atirando beijos à multidão... E com isto dor."

 

 

Húmus



publicado por LCC às 16:34
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
Março 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

António Ramos Rosa

Maria Judite de Carvalho

Manuel Alegre

José Cardoso Pires

Eça Queiroz

José Saramago

Sophia de Mello Breyner A...

José Saramago

Martz Inura

Feliz Natal

José Saramago

Almeida Garrett

Florbela Espanca

Boas férias

Alexandre O’Neill

Carlos Drummond de Andrad...

Pedro Homem de Mello

Mário de Sá Carneiro

Florbela Espanca

Fernando Pessoa

João Aguiar

Eugénia Tabosa

Irene Lisboa

José de Almada Negreiros

José Ilídio Torres

Bocage

Eça de Queirós / Ramalho ...

Florbela Espanca

Eça de Queirós

Eça de Queirós

José de Almada Negreiros

Urbano Tavares Rodrigues

Almeida Garrett

Bocage

Inês Pedrosa

Natália Correia

Eça de Queirós

José Saramago

Luís de Sttau Monteiro

Vinicíus de Moraes

Vergílio Ferreira

António Lobo Antunes

Aquilino Ribeiro

José Saramago

Rodrigo Guedes de Carvalh...

Machado de Assis

José Saramago

Vergílio Ferreira

José Carlos Ary dos Santo...

António Gedeão

mais comentados
4 comentários
4 comentários
3 comentários
2 comentários
2 comentários
últ. comentários
Donzelas do ApocalipseSem pai, sem mãe, Sem leite ...
Mais uma vez o meu obrigado pela tua visita Inês, ...
Foi com o Evangelho que fiquei presa à escrita de ...
Obrigado Inês pela tua visita e pelo teu comentári...
Mais um texto que não conhecia.Numa cadência quase...
links
tags

todas as tags