Ideia criada numa pequena conversa com os meus alunos, ao sabor de um amor entre 7 Luas e 7 Sóis, desaguada num desfile de amores impossíveis, paixões loucas, seduções inquietas, mergulhadas num oceano de uma língua sem fronteiras…
Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
Urbano Tavares Rodrigues
Abriu-se a porta do quarto e, ainda enlaçados, entram em desequilíbrio numa insólita suite, cheia de divãs verdes, com duas tapeçarias do Camarinha atrás do enorme tálamo, e vários desenhos estilizados de António Carneiro na parede do fundo, onde branquejam os vaporosos cortinados de musselina que caem pesadamente os reposteiros, emoldurando a grande janela ogival, que deve dar para o jardim.
Sentam-se na beira da cama, que é de facto imensa, com colcha de damasco, e que range.
- Vê lá se essa janela está bem fechada. Que frio!
- Vê-se daqui a poeira das estrelas a cair sobre um muro branco, lá longe. O muro branco do nada.
- Lá estás tu…Já não me queres beijar? Os beijos não são contagiosos.
- Pois não. Agora o resto…creio que não tenho preservativos. Chatisse! Estás a ver, não ando sempre preparado para as ocasiões.
- Não gosto de te ouvir falar assim.
- Não sei o que tenho Madalena. Decepção?
Depois fita-a, como se de repente fosse perdê-la, a engolir a palavra indesculpável, e deita-a sobre o leito imenso, nem afasta a colcha, que é também pesada. Desaperta botões, puxa-lhe a camisola de caxemira pela cabeça, quase lhe rebenta os atilhos do soutien, até expor às luzes veladas do quarto os seus mamilos erectos, as axilas escuras de tentadora, toda a morna solidão da sua pele. Até lhe tocar, com os dedos a tremerem, o sexo húmido de orvalho.
- Pára, por favor.
- Não sei se consigo, Madalena.
- Beija-me o umbigo, aí onde tenho o sinal da maldade.
Apertam-se, largam-se, despem-se completamente, quase ao desafio, tornam a beijar-se, lânguidos, saboreando-se, brincam, beliscam-se, lambem-se, a lua roça-se pelos canaviais, o sangue da paixão bate-lhes nas veias, rega as mãos com que eles já se possuem, talvez chame alucinações ou se misture aos lírios da pureza quando eles sorriem.
É em delírio, como num sonho mau, mas onde o mal é o bem e o bem é o mal, quando António se arqueia sobre ela, qual a estaca vermelha se enterra não na boca, como previsto, mas na obscura flor do ventre de Madalena.
O orgulho dela – loucura divina – dissipe-se quando os lábios comovidos de ambos se unem sobre o ardor da batalha.
Estação Dourada


publicado por LCC às 10:51
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1 comentário:
De carlos roberto de souza a 31 de Outubro de 2011 às 15:49
Donzelas do Apocalipse

Sem pai, sem mãe,
Sem leite materno...

Seu estômago vazio
Pediu por comida:
Com uma arma carregada
Roubou uma vida.

Escondia-se na escuridão,
Disfarçava-se na luz.
Foi a uma igreja...
Rezar, pedir perdão?
Não! Para roubar um pedaço de pão.

O mundo o condenou.
Amor e carinho
Jamais encontrou.

A sociedade o execrou,
A margem da vida o adotou.
Foi condenado a percorrer
Um longo e tortuoso caminho:
O seu exílio.

Mas, não estava só!
De ambos os lados,
Lindas e afrodisíacas donzelas
O seguiam:

A angústia e a fome
A solidão e a morte.

Do livro (O ANJO E A TEMPESTADE) de Agamenon Troyan.


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